"As portas da perçepção foram abertas, tudo passa a ser como realmente é: infinito". O efêmero passa a ser intenso, mais intenso do que nunca. A vida é vista no seu sentido pleno, nada se esvai a ela. Não há mais fim nem começo, a mentira confunde-se com a verdade, no fundo sempre foi o mesmo. E...O portal da mente é aberto...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Emanuelle


Ela preparava-se mais uma vez para entrar no palco da pequena casa de shows, que lembrava um antigo cabaré, sobretudo pelo aspecto meio antigo e clássico, uma fachada com ornamentos que lembravam o período barroco.  Na porta do pequeno quarto, que transformara-se em camarim, o dono da casa aparecera já esbravejando pela demora da estrela daquele pequeno estabelecimento. Sabia ele que a maioria dos clientes, já incontentes, vinhera para vê-la. Emanuelle ainda terminava seus últimos retoques na maquiagem, e ficou indiferente aos gritos de seu patrão. Vagarosamente levantou-se após terminar calmamente os retoques em seu rosto. O vestido branco delineava-se sobre seu corpo, desenhando-o como que perfeito. Avançou contra o senhor barrigudo de cabelo pintado de preto e terno amarelo, lentamente colou seus lábios vermelhos sangue na bochecha do patrão, e seu Manoel quase que enfeitiçado calou-se, como se aquela marca vermelha em sua bochecha tivesse amordaçado sua boca. Sucumbiu sem resistência ao encanto daquela linda mulher. Emanuelle sabia que tinha poder sobre os homens que a cercava, e sabia exatamente o que fazer para que eles fizessem sua vontade.

Seguiu pelo escuro e estreito corredor que levava ao palco. Sua pele amarronzada, seus lábios carnudos e seu rosto levemente arredondado, fazia os dois seguranças ali esquecerem de seu trabalho para contemplá-la. Seu corpo cheio de curvas desenhadas pela roupa que lhe cabia como por encomenda, dificilmente uma roupa não lhe cairia bem. Sua beleza fazia inveja até mesmo a Afrodite ou as mais belas musas. Era a poesia incorporada, não só sua inspiração. Subiu no palco, era ali que brilhava, e não só pelos pequenos cristais do seu lindo vestido dado pelo prefeito da pequena cidade.

Os homens ali embaixo literalmente babavam a sua presença, e ela sabendo de seu poder, os encarava um a um, com uma olhar cor de mel que deixava todos hipnotizados, em transe. Ela despertava algo que beirava o sobrenatural naqueles ali. As mulheres , por mais belas que fossem, eram ofuscadas por sua beleza, balbuciavam comentários mesquinhos em que nem elas próprias de fato  acreditavam. O senhor que dançava com sua mulher entortava o pescoço como um contorcionista para ver melhor as curvas de Emanuelle, o que o fez levar uma bronca tremenda acompanhada de um belo tapa de sua “patroa”. Era de fato uma energia que atraía e mexia com todos, capaz até de ocultar e deixar passar despercebido sua falta de talento cantando, e os erros de sua limitada banda. O centro da atenção era ela, todos apenas a contemplavam, seu corpo, seu gestos, a forma sensual com que parecia balbuciar, e não cantar, as musicas. Sem duvida era um ser de outro mundo.

Depois de quase duas horas de show, que mais pareceu um transe coletivo, onde esvoaçavam-se, rosas chapéus, e até mesmo dinheiro com direção ao palco, Emanuele terminava seu espetáculo. Todos cercavam a saída do palco, o desejo era de tocá-la, possuí-la, era uma deusa, e ela sabia disso, soltava beijos para os fãs enlouquecidos. O caminho de volta para o camarim era sempre mais difícil, ali nada mais importava, todo aquele desejo e adoração que tinham por ela. Estava só mais uma vez, e o dinheiro conquistado com aquele seu jeito que contaminava até os mais tímidos, não supria o vazio que sentia por dentro. Em frente ao espelho, seu sorriso tomava tons cinza, e a estrela não mais brilhava. Sua maquiagem era borrada pelas incansáveis lagrimas que derramava sozinha, como sempre foi, em frente aquele antigo espelho.







sexta-feira, 12 de abril de 2013

Nostalgia



Abriu aquele portão que não era mais o mesmo. Não sabe há quanto tempo, nem quantas vezes aquela passagem que lhe era tão intima havia sido mudada. Anos atrás costumava ser de uma madeira envelhecida. Por vezes quebrava, fazendo com que seu pai abrisse a antiga caixa de ferramentas para consertá-lo. Agora o portão era de metal, e não havia mais aquela antiga cerca que perdurara por tanto tempo. Sempre reclamara dela, incontáveis foram as bolas de futebol que tiveram seu fim nas farpas daquele arame.

Adentrou na casa, o pequeno espaço onde jogava bola ainda existia, agora com piso "vivo". Entre os espaços de concreto, uma grama verde reluzia. Pensou sorrindo quantas "cabeças de dedo" teriam sido poupadas se tempos atrás houvesse aquela grama.

            -Senhor, senhor...Vamos entrar para o senhor conhecer o interior da casa - disse a vendedora fazendo-o voltar a si por um instante.

Entrou numa casa que não era aquela de seu tempo. O teto agora era coberto por madeira. Menos mal, levando-se em conta os transtornos que sua mãe passava com a sujeira que caía das antigas telhas. A sala havia sido totalmente remodelada, assim como os diversos cômodos. Malmente reconhecia onde fora um dia seu quarto.

            -Temos 3 quartos amplos senhor, um deles com suíte...- falava sem parar a mulher loira e bem vestida, sem respirar nem sequer um segundo.

Ele a ouvia ao fundo, seus pensamentos estavam longe, 40, talvez 50 anos atrás. Se encaminhou para o quintal, acompanhado da falácia de sua inconveniente "companheira" que insistia haver outros cômodos para conhecer.

Os "fundos", como todos costumavam chamar, estava irreconhecível como o resto. Os pés de manga e caju tornaram-se a beira de uma grande piscina. Lembrou que ter uma piscina em casa era seu sonho quando criança, no entanto hoje preferia aquelas grandes pedras amontoadas que ficavam naquele lugar, e que haviam sido montanhas, naves espaciais, palcos de rock...

Veio-lhe uma lembrança que fez seus olhos encherem de lágrimas que não transbordaram. Desde que crescera chorar tinha tornado-se coisa rara, apesar de ironicamente haver mais motivos para tal. A lembrança era de seu irmão que padecera, e do caminhão de "mentira" (para ele sempre era verdade) que dirigia ao seu lado com um antigo volante perdido naquele imenso quintal, quintal que costumava fazer de mundo.   

Nessa altura a vendedora reclamava do enorme pé de Pinheiro que sujava a piscina, e que seria cortado para evitar o transtorno. Nunca entendera o que aquela arvore do sul e de lugares de clima frio, fazia em pleno sertão. Por diversas vezes imaginara aquela grande arvore coberta de luzes de natal. Gostava dela.

Lembrou do canto da cigarra, que vinha quase sempre dali. Todo fim de tarde, era certo ouvir seu canto, que o deixava irritado. Jogava pedras no Pinheiro, a cigarra como que se divertindo com a cara do tolo jovem, parava por alguns segundos e recomeçava seu canto, cada vez mais forte.

O sol já se punha a esta altura, outrora naquele horário estaria atirando pedras em cigarras, ou correndo para ver o carro do Fumacê passar despejando seu veneno, e fazendo a alegria das crianças.

Tudo era tão bom, vivo, agradável. Aqueles filmes, lapsos que passavam em sua mente. Tinha vontade de voltar no tempo. Não por ter errado, não queria fazer diferente. Queria viver de novo tudo aquilo, ter aquela inocência, aquela imaginação que fazia cada dia ser diferente, cada dia ser de fato um novo dia. Era um sentimento maravilhoso, porém triste de beirar o insuportável. Uma felicidade advinda de ter vivido tudo aquilo. De lembrar nitidamente de cada passo, cada queda. No entanto sentia-se triste por não poder viver aquelas coisas novamente. Era doído tudo isso para aquele velho coração, já baleado de tantas viagens.

Sua reflexão foi quebrada pelo som insuportável, que não era de uma cigarra, aliás como queria ouvir uma cantar novamente. Tinha certeza que não jogaria pedras como outrora. O som alto que ouvia vinha das buzinas dos carros que transitavam na rua onde um dia jogara futebol, e hoje era ponto de engarrafamento na hora do rush.

            -Então senhor podemos fechar a compra? - Havia até mesmo esquecido da vendedora "hiperativa" que o acompanhava.

Sem responder uma palavra, aquele excêntrico senhor saiu, deixando atônita a mulher que considerava certa a venda daquela bela casa.





terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Nada é em vão...


Era um jovem sonhador, feliz. Adorava sentir o vento alisar seu rosto enquanto pedalava com as mãos soltas, imaginava-se voando entre as nuvens. Possuía aquela alegria que apenas as crianças parecem possuir no mundo de hoje.

Todos os dias pela manhã como todos desse mundo cão, ia cumpri suas obrigações. Achava um tanto quanto tão banal tudo aquilo.  

- Bom dia – dizia ao empresário de terno e gravata que o ignorava com pressa.

Não entendia aquele corre-corre ao seu redor. Tantas pessoas, a largos passos, sem chegar a lugar nenhum. Gostava de sentar no banco da pequena praça, e alimentar os pombos. Eles não corriam, pelo contrario, voavam. Eram livres para isso.

No ônibus na volta pra casa, seu sorriso parecia único em meio a rostos tristes, cansados. Lembrou que certa vez havia visto um filme de zumbis ( o que lhe rendera vários pesadelos) , e era exatamente isso que lhe parecia. Riu ao pensar aquilo.

Descendo do ônibus ao passar por um loja viu aquele nariz de palhaço estampado na vitrine. Veio uma vontade súbita de compra-lo, mesmo nutrindo certo medo de palhaços. Retirou suas moedas e comprou meia dúzia daquele item. Tinha uma ideia do que fazer daquilo.

No dia seguinte enquanto sua mãe preparava o café apressada para sair para mais um dia de trabalho, ele surgiu na cozinha com aquele nariz de palhaço, arrancando um sorriso que há muito não via sua mãe soltar.  Objetivo alcançado. Após refletir bastante sobre todos aqueles corpos que caminhavam como zumbis pelas ruas e avenidas, surgiu-lhe a ideia de fazê-las nem que seja por um simples momento sorrir. E que melhor forma do que usando um nariz de palhaço?

Partiu seguindo seu caminho, sorrisos estampavam rostos ao seu redor. Não sabia se o achavam ridículo, ou se achavam interessante, engraçado. Não importava, queria apenas ver aqueles rostos tristes ganharem brilho e felicidade.  Aos interessados distribuía os outros narizes. Qualquer simples sorriso tinha uma sensação de dever cumprido. E continuou a fazer isso durante aqueles dias, pitando com sorrisos aquelas pessoas tão tristes.

Certa vez ofereceu um nariz daqueles para uma moça que bradava contra o cobrador que lhe passara por engano o troco errado. A mulher brava, pegou o nariz e jogou no chão, mandando-o sair de seu caminho. O jovem sentou-se cabisbaixo na sua poltrona, e lágrimas sinceras, quão raras tem se tornado elas, escorreram-lhe pelo rosto.  Começou a pensar o quanto inútil era tudo aquilo.

Em casa num ato de desespero, jogou todos seus narizes pela janela. Decidira não fazer mais nada para mudar aquilo. Tinha perdido a fé.

O destino tem dessas coisas, um médico de um hospital próximo passava pela rua naquele momento.  Encontrou aqueles narizes de palhaço espalhados pela rua. Ele trabalhava com crianças que tinham câncer. Lembrou-se daquele filme, de um medico maluco dos Estados Unidos que usava um nariz de palhaço para alegrar seus pacientes, foi então que lhe surgiu uma ideia; iria colorir um pouco aquele ambiente cinza em que vivia. 




sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O choro do poeta

As lagrimas se misturam com as palavras
No vai e vem à dor é congelada, frisada num momento
Fotografia da dor, imagem sem ação
Letras harmonizadas aos soluços
Emana-se o choro do poeta
Nascido para sofrer
Escreve para confortar
Poesias são lagrimas
Derramadas sobre o papel



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Amor de malandro

Acordou após a forte luz do sol agredir seus olhos. Meio atordoado não entendeu bem o que estava por acontecer em sua pequena pocilga. Seu Raul abria as cortinas do pequeno espaço composto apenas de quarto, sala e um minúsculo banheiro. Aos berros usava todo seu repertório de palavrões. Januário permaneceu na cama, sua cabeça parecia que ia explodir, e ainda se encontrava meio tonto, resquícios da noite anterior. Aos poucos foi recobrando sua consciência, e percebeu que Seu Raul estava lhe cobrando mais uma vez o dinheiro do aluguel, que já completara três meses de atraso. Levantou-se e sentou ainda na cama.




- Seu Raul, prometo que desta semana não passa, os negócios...


- Que negócios seu vagabundo, você não faz nada dessa vida fio de uma égua, quero meu dinheiro hoje. Faz mais de uma semana que foges de mim, mas hoje eu te peguei. - interrompeu Seu Raul sem ao menos esperar o argumento de seu enrolado inquilino.


Januário tirou algumas cédulas e moedas do bolso, que não davam conta nem de um terço da dívida. Seu Raul vendo o pouco dinheiro passou os olhos pela sala,se deparando com uma vitrola sob a estante castigada por cupins, resolveu levá-la como pagamento da dívida em questão. Januário até pensou em impedir o velho com aparência austera, bigodudo e de vestes sujas, mas preferiu não lutar contra aquilo. A vitrola havia sido presente de uma cubana, que certa vez visitara a cidade histórica da Bahia onde vivia, e com quem tivera um breve caso. Uma série de vinis de Cartola, Nelson Gonçalves e mais outros ficaram sobre a velha estante. 


Após rápida passagem pelo banheiro, Januário pegou seu antigo violão e seu chapéu branco característico, ambos heranças de seu pai. Foi paras ruas, onde de fato era seu lar. Perdeu seus pais muito cedo, quando tinha apenas 14 anos, e aprendeu cedo a ser malandro. Seu destino era certo, o bar de Dona Dalva. Passava o dia a dar vida às cordas de seu violão, que acompanhava sua belíssima voz, donde saíam belas canções. 


Para os habitantes daquela pequena cidade, era apenas um vagabundo que atraía as meninas ainda inocentes com seu papo fácil, e canções baratas. Para outros um bêbado preguiçoso que não queria nada com a vida, não sabendo eles que na verdade Januário era apaixonado pela vida, e não conseguia se adaptar a rotina que aqueles ao seu redor consideravam dignas. Dona Dalva era uma das poucas da cidade que conhecia a história do malandro, fora amiga dos pais dele, e sempre que podia ajudava o “pobre coitado”. 


Januário era um sonhador, e se considerava um homem fora do seu tempo, ou de seu lugar. Desde que escutara as histórias que Omara, a cubana que certa vez passara alguns dias com ele, contara-lhe sobre Cuba havia se encantado, e vivia dizendo para Dona Dalva que qualquer dia iria parar lá.


Enquanto tomava seu primeiro gole de cerveja, apareceu na porta Andreia, a mulher por quem Januário estava enrabichado já havia algum tempo. Pôs-se a tocar e cantar versos de improviso para aquela linda negra de cabelos cacheados, e de olhos verdes. A mulata ocupava boa parte de seus pensamentos, e era musa de suas canções há um bom tempo. Andreia sorriu cinicamente para o malandro e após pegar a “quentinha” de seu chefe partiu para o lugar em que trabalhava. No meio do caminho Januário a abordou, e tentou beijá-la como diversas outras vezes já havia o feito, mas a mulata de corpo esbelto virou o rosto quando o ato parecia concretizado, e pediu que lhe encontrasse a noite, próximo de seu trabalho.


Januário, conquistador e galinha, já havia deixado apaixonadas diversas garotas da cidade. Mas nunca havia se apegado a nenhuma delas, o que lhe rendeu a sua má fama. No entanto, nunca havia sentido nada parecido pelo que sentia por Andreia, talvez pelo fato de que ela não era unicamente sua. Andreia trabalhava num dos mais famosos Bregas da cidade, e era uma prostituta, das mais belas e mais requisitadas. Há algum tempo o malandro com sua conversa fácil havia conseguido seus serviços de graça, e desde então se apaixonara, e a encontrava sempre que as horas de folga do trabalho de Andreia permitiam.


A noite como combinado Januário estava lá, na viela escura próxima ao antigo casarão onde havia um bar, fachada do bordel que ali funcionava. Após esperar por mais de uma hora, apareceu Celestina, uma das putas que trabalhava com Andreia, e trazia-lhe um bilhete da sua paixão. Em poucas palavras Andreia pedia que ele a encontrasse na sua pocilga, onde o estava a esperar. 


Encaminhou-se então para o cortiço onde morava, não gostava de levar Andreia para lá, pois não achava o lugar digno da presença de sua amada. Estranhou o bilhete dela pedindo para que ele fosse vê-la em sua “casa”, mas havia tantos dias que não a via, que nem se preocupou com o acontecido. 


Chegando ao cortiço, ela o esperava em frente à porta de sua morada, e o recepcionou com um caloroso beijo. Adentraram a pequena casa, e ela estranhamente reparava tudo ao seu redor. Percebera a falta da vitrola que Januário havia lhe mostrado na primeira e única vez que tivera ali. A estante que caía aos pedaços, e guardava os vinis de tempos charmosos, que não eram mais estes. Quando Januário se preparava para esboçar algumas palavras, Andreia pôs lhe o indicador na boca, e logo após o beijou. O beijou como nunca o havia beijado, pela primeira vez se entregava sem medo aquele amor, que duvidara por muito tempo existir. Ele lhe rasgou a pouca roupa, e se entregou junto aquela ardente paixão. Dançaram a dança da paixão sobre aquela antiga cama, nem mesmo o barulho das dobras quase soltas, e prestes a soltar, era capaz de incomodá-los. Era o ápice daquele amor marginal, Andreia esquecia-se de sua dura rotina no Brega, de sua infância pouco feliz que havia lhe marcado e achava conforto nos braços daquele malandro, que não tivera uma sorte muito melhor que a dela. Por um momento, que se confundia com a eternidade, aquele casal viveu um sonho. Uma canção feliz. 


Na manhã seguinte Andreia que nem chegou a dormir direito, se apressara em pegar suas poucas vestes, ainda rasgadas. Januário despertou sorrindo, e foi ao encontro de sua amada, que recuou. E de costas e cabeça baixa disse:


- Não quero mais te ver, isso já foi longe demais, estou perdendo dinheiro nessas minhas fugas.


- Eu achei que você gostasse de mim – simples e espantando, como uma criança Januário soltou as palavras.


- Hahaha você já viu puta gostar de alguém, ainda mais vagabundo. Foi tudo diversão. Tem horas que a gente cansa de dar para bêbados sujos que mal conseguem conversar, e é bom se divertir um pouco com uma carinha de anjo que nem essa sua. Adeus, e por favor não me procure mais.













O malandro ficou estarrecido diante daquelas palavras, sem reação. Mais tarde foi para o bar de Dona Dalva como de costume, poucos estranharam sua falta de brilho. Esperou por Andreia, mas quem foi buscar a comida do patrão foi Celestina, que foi clara quando enfatizou que Andréia não o queria ver. Desesperado e depois de passar o dia afogando suas mágoas na mesa de bar, resolveu ir à procura da prostituta. No entanto barrado na frente do bar, e sem dinheiro para “consumir” no bordel, o malandro levou uma surra do dono do estabelecimento, e foi jogado na viela onde diversas vezes encontrara a bela mulata. Chorou ao relento, nunca amara outra mulher como amou aquela “puta”. Foi então que decidiu partir daquela cidade, pegou suas poucas tralhas, pôs seu violão nas costas e caminhou sem rumo.


Na cidade ninguém mais o viu. Alguns dizem que o malandro se deu bem, e realizou seu sonho de conhecer Cuba, onde vivia à custa da cubana que certa vez conhecera. Outros dizem que o destino foi cruel com o coitado, e que vez por outra alguém o via com seu violão nas sarjetas da capital. Mas ninguém sabia o que de fato acontecera ao malandro de coração partido e violão na mão.


O que Januário nunca soube é que ele conseguira tocar o duro coração daquela prostituta, que por muito tempo duvidara do verdadeiro carinho, afeto e ternura. Ela o amara, mas não suportou sentir aquilo, com a vida que levava.








quinta-feira, 3 de maio de 2012

Cheirinho de café no fim da tarde


A tarde ia se despedindo em seus últimos suspiros, e as frestas amarelas do sol atravessavam as pequenas janelas entreabertas da cozinha. Aquele cheiro inconfundível pairava no ar, o café estava quase pronto, mas a lembranças que se passavam pela minha cabeça me diziam que faltava algo.

Engraçado estas coisas da vida, tem cheiros que te marcam. Pessoas que te marcam. Faltava um pedaço, mas eu ainda vivia, sobrevivia ,não sei dizer ao certo. Acho que as coisas são assim, você segue sempre para frente, e coisas vão ficando para trás. Aqueles beijos enquanto a água ainda estava no fogo, por vezes acabava passando do ponto. Acho que as chamas daquele antigo fogão a lenha, acabava nos contaminando, e o que começava na cozinha, quase sempre acabava no quarto, ou no sofá. Os sorrisos pouco tempo depois, anunciavam o gozo de desfrutar muito mais do que aquele afetuoso café.

Não sei o que aconteceu, talvez tenha sido a rotina. Mas como pode alguém enjoar daquele cheirinho de café de fim de tarde. Palavras que ouvira outrora ecoavam ainda na minha mente. E aos poucos ia descobrindo o que lá o fundo já sabia...

 O café está pronto, volto de meus devaneios de um passado real, e não tão distante. Encho a minha xícara preferida, e mais memórias passam pela mente. Tomo alguns goles, tenho a impressão que falta algo. Não está tão doce como era de costume, mas sei que o açúcar não ajudaria a adoçá-lo. Sento no sofá, deixo as lembranças de lado, e continuo a tomar o meu café amargo...


domingo, 25 de março de 2012

Reflexões de fim de noite

Se fosse empresário e tivesse grana investiria no setor das bebidas alcoólicas, ou em outros tipos de drogas, caso fossem lícitas (cocaína, maconha, LSD etc). Faria isso porque não é difícil perceber o quão caótico é essa sociedade em que vivemos. As pessoas se drogam o tempo todo, e vêm na droga, sobretudo o álcool por ser licito, a única forma de uma rara felicidade, um reles momento de prazer. Não precisa se esforçar muito para ver isso, olhemos ao nosso redor. 

Temos uma juventude sem perspectiva, que quer aproveitar a qualquer custo este momento da vida, pois sabe que no futuro será um adulto chato e cheio de responsabilidades. E olhemos todas estas pessoas que convivemos todos os dias, trabalham em empregos que odeiam, passam cinco, seis dias esperando o fim de semana, que é quando livres momentaneamente da escravidão imposta por este sistema, vão poder sair de si por algumas horas, e ter um raro momento de prazer com os amigos na mesa do bar. Se tiverem sorte encontrarão algum parceiro sexual que dure aquele fim de semana, ou pelo menos aquela noite de sábado.

Os que são casados em sua maioria, vivem vidas infelizes, apesar de muitas vezes quererem manter as aparências, mesmo percebendo que brincar de casinha não é lá tão legal como nos filmes de Hollywood. Estes também encontram nas drogas um refugio dessa situação, que cada vez mais, mostram os dados, terminam em divórcios turbulentos. 

Mas nem tudo é “desgraça”, alguns poucos encontram uma pessoa que realmente gostam, e isso deixa a vida mais leve, o que explica porque estas pessoas se droguem menos. Elas possuem um dos poucos laços de verdadeira felicidade, compartilham um verdadeiro sentimento. No entanto, nem tudo também são flores, quando este laço se rompe, é justamente no álcool que lá vão eles buscarem refugio. 

Como então criticar aqueles que tiram 30% do seu salario de escravidão, e veem na bíblia refugio melhor que o álcool, enriquecendo falsos profetas com a vontade de se livrarem desta tortura social? Vamos lá pessoal, só olhar ao redor, Marx a mais de um século atrás já havia dito que o capitalismo iria “fuder”, para usar um termo atual e de fácil compreensão, com as relações afetivas verdadeiras. Pois é caro amigo, ele estava certo, e o que temos hoje é uma sociedade doente. E enquanto isso o que fazemos? Nos drogamos e vivemos nossas vidas medíocres como se tudo isso fosse algo natural.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Espírito Natalino



-Mãe, eu não quero esse carro pequeno, quero aquele grande ali ó - dizia a criança esboçando um choro daqueles.

A mãe tentava acalmar a criança que sentou no meio da loja de braços cruzados e com lagrimas nos olhos e se negava a sair dali sem o brinquedo tão desejado. A esta altura chegava um homem, bem vestido, com os habituais terno e gravata, para se juntar aquela cena. Imaginei ser ele o pai da criança, além de empresário. Depois de alguns minutos de uma conversação que parecia incessante, e havia tirado minha atenção dos CDs e DVDs que “foleava” na prateleira da loja, o casal saiu, junto com o garoto, segurando seus dois pacotes (o carro pequeno, e o grande por qual tanto insistiu) rumo ao carro, este maior ainda, importado do outro lado da rua.

Era véspera da véspera de Natal, e todas as lojas daquele centro comercial encontravam-se repletas de gente, e enfeitadas com aquelas decorações clichês desta época. Muitas cores fortes, e promoções a perder de vista. Isso só aumentava minha repulsa a esta época que nunca fui fã. Acho que é porque na infância minhas cartas para Papai Noel nunca tinham respostas, por mais que na TV os filmes de fim de ano mostrassem o contrário.

Peguei meu CD, que tanto demorei para escolher, e fui para a fila gigante do caixa  que aumentava a cada minuto que se passava. Odiava pegar fila, mas como eu não tinha pressa naquele dia esperei pacientemente.

- ...aff, eu não suporto aquela perua. Só imagino que vestido ela vai usar amanhã na ceia, dessa vez encomendei o meu para ela não imitar novamente.- falava enquanto uma outra mulher ouvia atentamente.
- Mas não é amiga, ela é muito cínica. Se eu fosse você...- a mulher com quem falava a cutucou com o cotovelo para que parasse de falar.
- Olha, ela vem ali.- preveniu a companheira.
-Oi amiga, quanto tempo, que saudade de você...

Neste momento havia chegado minha vez de ser atendido, e deixei de observar as mulheres que se abraçavam e se beijavam aproveitando o clima natalino.

No caminho para casa, vendo os barracos e casas pobres da comunidade que ficava nos arredores do comércio refletia sobre as cenas que a pouco havia presenciado. Foi quando vi uma criança, suja, mal vestida, que corria alegremente com um cordão que segurava uma espécie de carro produzido com uma garrafa. Aos poucos percebi que ela ia em direção a uma outra criança, de expressões tristes que estava sentada a contemplar um outdoor que ficava nos arredores da comunidade. O menino que brincava com seu carro improvisado, depois de trocar algumas poucas palavras com a criança que estava sentada entregou-lhe o cordão com a garrafa que havia sido transformada em brinquedo. As feições antes tristes daquela criança que se encontrava sentada, se transformaram num sorriso que me fez esquecer, pelo menos por um momento que era época de Natal.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sob(re) a árvore e o "destino"


Sim, eles estavam lá embaixo daquela arvore mais uma vez, mas algo havia mudado, anos haviam se passado. Os raios de sol que passavam por entre as folhas os tocavam delicadamente, dali a alguns minutos ele já não estaria mais a iluminar aquele lugar. Filmes de tempos atrás se passavam naquelas mentes.

Foi ali que se beijaram pela primeira vez, quando ainda eram crianças. Ela alimentava seus sonhos, via-o como um príncipe dos contos de fadas que sua mãe lia as noites antes de dormir. E neste sonho ele a salvava dos perigos daquele reino, e vivia com ela em seu gigantesco castelo. Ele por outro lado tinha a mocinha de seus sonhos, tinha por ela um sentimento tão puro. Mas foi ali em seu mesmo que certa vez ele a negou em frente aos seus amigos.

-Tá namorando, tá namorando- era o coro, e ele bradou que nem sabia quem era essa garota.

Ela então derramou lagrimas, que fizeram seu rosto brilhar e pôs-se a correr. Sua vontade era ir atrás dela, mas não podia deixar-se abalar em meio a seus amigos. Também chorava, mas não derramava lagrimas, afinal aprendera com o pai que homens de verdade não choram.

Eles foram crescendo, e foi ali mesmo que descobriram os segredos do amor. Ela tinha medo. Ele também, no entanto não aparentava, tinha que mantê-la segura. E a manteve por entre seus braços. Sua mão viaja por cada centímetro daquele corpo. Ela se sentia segura, seu medo ia embora, e agora já podia entregar-se aos prazeres do amor, e se entregou a ele. Suas unhas serravam-lhe as costas com mesmo vigor que ele entrava nela. A dor inicial dava lugar ao deleite, e eles pareciam estar dançando passos de balé naquela superfície verde. Emanavam como animais um canto de prazer e gozo, ouvido pelos pássaros, únicos observadores daquela cena. 

Tantas coisas haviam vivido ali, e agora olhavam para trás e não entendiam como as coisas haviam mudado. Como a vida havia sido tão implacável. Pararam ali em silencio por alguns minutos, que mais pareceram horas, seus olhares fixos ainda possuíam resquícios do fogo daquela paixão.  Suas vontades eram de agarrem-se ali mesmo e se entregarem, como haviam feito tantas vezes naquela grama. Mas sabiam que a vida não era uma novela, nem tão pouco um conto de fadas como aqueles que a mãe dela lia quando criança. E sem trocar nenhuma palavra ela virou-se, com lagrimas nos olhos e partiu, o deixando só. Ele teria lutado, gritado, bradado, mas agora estava cansado, e aceitou o “destino” que estava lhe reservado...



quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Tempestade e o Homem Azul

Ele, Homem
Ela, Tempestade.
Ele sem pretensão alguma a encontrou num desses dias em que a força do acaso parece conspirar mais que o comum. Meio que por impulso molhou-se nela. Não sabia bem porque, não pensou muito no que estava a fazer. Simplesmente foi atraído pela beleza daquele espetáculo e seguiu a vontade que sentia.

Num banho belo, e pleno sentia as gotas dela, tocar-lhe a alma. Gotas fortes, mas ao mesmo tempo tão delicadas. E então sua alma ao ser tocada brilhava em um azul vivo. Nunca havia sentido essa sensação, uma alegria incessante, e aquela vontade de apenas sorrir e se juntar a Ela. Sim, pela primeira vez em muitos anos estava feliz. Seu coração pulsava forte ao senti-la. Tão bela era Tempestade, ele a queria cada vez mais, não queria que esse momento acabasse. 

Quando aquele momento findou-se, Ele estava renovado, e queria aquilo mais vezes. E seu pensamento tinha agora apenas um destino, seu olhar perdido a procurava. Acordava sorrindo, pois havia sonhado com Ela. Será que isto era o que chamavam de amor?  Este sentimento que nunca havia sentido, e conhecia apenas das belas histórias que todos contavam.

Não tinha tempo para pensar nisso tudo, apenas queria vê-la de novo, senti-la novamente. Todo fim de tarde ia a sua procura, mas Ela não mais aparecia, sempre escapava. E então o Homem Azul, perdia seu brilho, e voltava ao seu mundo cinzento.

Mas a Tempestade também a Ele sentia-se ligada, não sabia como, nem porque, mas seu azul era mais forte quando estava com Ele, suas gotas eram mais doces. E seu encanto, parecia perder-se naquele mero mortal. Mas não podia estar acontecendo isto, era impossível estar apaixonada por um mero “Homem”. Como poderiam um dia pensar em ficar juntos? Como poderia Ela, Tempestade estar apaixonada por Ele, um Homem? Pareceria-lhe inconcebível aquela idéia, se seu coração (sim as tempestades também tem um) não dissesse e sentisse o contrário.

O Homem apesar de tudo não desistiu, e certo fim de tarde pôs-se a clamar por Ela de joelhos. E a pedir seu coração, Ele queria senti-la novamente, estava apaixonado, e hoje sabia o que era o amor, que tanto resistiu outrora a sentir.

Vendo o apelo daquele Homem desesperado, Ela decidiu não mais pensar, tudo que queria agora, era entregar seu coração aquele pobre mortal. E a Tempestade veio, e o Homem pôde sentir de volta aquele azul, pôde sentir sua alma brilhar, e unir-se aquela Tempestade. Eram felizes, eram unos. Sentiam-se como nunca. Ele tinha a certeza que em outra vida havia sido uma nuvem, ou um anjo, que vivia junto a Ela. E Ela sentia que outrora havia sido uma mulher, e que vivia com aquele Homem. Estavam entrelaçados por uma força maior que tudo aquilo, uma força que os fazia suportar a distancia, e que fazia de tudo aquilo algo maravilhoso. Eram a Tempestade e o Homem Azul.

O tempo...Muitos dizem que ele cura, outros tantos  acham que ele faz adormecer. Para eles pouco importava se mundo estava a girar e junto com ele o tempo, estavam cada vez mais apaixonados, cada vez mais amando um ao outro. Ele já não conseguia viver sem ela, não queria outra vida. Ela já não mais se importava se ele era apenas um Homem, só queria saber de amá-lo, e de atravessar os limites da razão e encontrá-lo. Não conseguia imaginar-se agora sem Ele.

Mas o Homem, sentia medo, sabia que nunca poderia tê-la plenamente em seus braços, e que apesar do grande amor que sentia por Ela, aquilo o sugava. Pois então a “acovardar-se” e a dar ouvidos à “razão” que não estava em seu peito. Mas como é que podemos chamá-lo então de covarde? Como podemos julgá-lo como tal, se esse era um amor impossível? Quem poderá algum dia saber de seus motivos, ou como este Homem sentiu-se?  

A Tempestade não o entendia. Ela havia tentado fugir, evitar, mas agora só queria entregar-se. Mas o Homem não mais aparecia, e em todo fim de tarde, Ela derramava suas lágrimas e bradava, para que o homem por quem se apaixonou, e estava amando aparecesse.       Mas Ele não mais aparecia, e a tristeza era o que para Ela restava. E sim o queria mais que nunca, mas parecia aos poucos contentar-se que não mais o teria.

E então se perderam em suas vidas, e em seus mundos. Mas aquela ligação que tinham nunca acabou. O amor entre eles era maior até mesmo que o próprio fim. E Ele, Homem, Ela, Tempestade, continuaram lá no fundo com a certeza de que um dia, em algum lugar, vão poder estar juntos e se amar para todo o sempre.

Alguns dizem que eles ainda hoje se encontram, em um ou outro fim de tarde qualquer. E que deste encontro saem lindas faíscas azuis que pairam pelo céu, e iluminam todos os cantos com um azul forte e brilhante como é este amor.

Foto: ritapalhares.blogspot.com

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Além do que os olhos podem ver

Uma postagem especial. Esta crônica é de uma grande amiga minha, e eu achei genial...Boa leitura. 


Por Juliete Sales Martins




Na correria e falta de tempo do dia a dia, os compromissos não nos permitem olhar pela nossa janela e ver o que existe além dela.
Mas, em um desses dias de tédio, em que se tem um monte de trabalho a fazer e nenhuma disposição, debrucei-me na minha janela e vi o de sempre: a oficina de meu pai, carros desmontados, sujos e uma meia dúzia de homens. Eles trabalhavam duro no conserto dos veículos, as suas mãos rudes lixavam, martelavam e manuseavam aquelas máquinas, cujo o som perturbam a mente de qualquer um.
Por um instante, percebi que pela janela não existia só uma oficina, eu estava diante de um ateliê de arte, onde aqueles carros, que parecem mais um ferro velho, depois de um longo processo, tornam-se novos como de fábrica.
Embora a meia dúzia de artistas não seja vistos como tal, não seria equívoco nenhum comparar as mãos ásperas deles com as de um escultor de barro, que produz aquelas peças lindas e tão admiradas, ou as fortes pistoladas de tinta com o deslizar de um pincel em tela.
O trabalho que aqueles homens desempenhavam com tanta determinação, dando gargalhadas, falando besteiras, não é muito valorizado nem visto dessa forma, pelo menos foi a primeira vez que o vi com outros olhos, os da sensibilidade.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"Extintos"

Sereno o vento do fim de tarde que traz consigo as nuvens da tempestade que está por vir. Não tardará para chegar. Sentidos ao reverso da palavra, louca jornada transcendendo os limites razoáveis de razão.
São momentos de um mundo montado, desprezo a toda volta. Caras pintadas, e prestes a “explodir”. Esconde-se a loucura natural, está não tardará a surgir... E as gotas que caem vagarosamente do céu, o fogo da loucura não hão de apagar. Permanecemos sãs, extintos são extintos do ser, e tudo na verdade não passa de um grande teatro...Esta peça que assistem a todos e todos assistem a ela, não tem hora para acabar, nem fim, nem ao menos começo, não tem entrada nem platéia. Sobram atores, atrizes e sim... muitos protagonistas...poucos coadjuvantes
E o mundo ainda assim gira...e nós seguimos seu compasso, delimitados nestas linhas...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Enfermidade



E o desejo se faz ser dentro de ti.
E o suor escorre pelas mãos cada vez que a vê.
Seu corpo fica quente quase em febre.
A pulsação acelera, palavras se ofuscam.
Uma disritmia cardíaca faz o coração pular a boca.
-Mas o que está acontecendo.
Estou doente?
-Estás enfermo sim meu caro amigo.
-Mas que enfermidade é esta que me acometeu tão de repente?
-Esta enfermidade meu amigo, chama-se paixão.
-Não pode ser, mas...mas qual a cura para isto?
-Não existe cura, há apenas o suave deleite.
-Blasfemas de mim?
-Oh claro que não, não penses isto de mim. Afinal o “pior” ainda está por vir, será quando seu quadro se agravar e evoluir para amor...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Conversas e despedidas



- Hei! Vamos nos entregar, e só- disse ele.
- São muitos os muros que nos separam, nossa relação é impossível.
- Vamos tentar você me faz tão bem, sou apaixonado por você.
- Você me cobra algo que não sinto. O melhor é você me esquecer.
- Eu não vou te esquecer, gosto muito de ti, não quero te perder.
- É melhor, não quero te fazer sangrar.
- Que tolice!!- exclamou já exasperado- Você não vai me fazer sangrar
           Ela de cabeça baixa permanecia calada
- Fala comigo, por que está agindo dessa forma?
- Não há muito que falar...
- Não entendo, estava tudo tão bem.
Ela permaneceu calada, e ele vendo a frieza em seu olhar dolorosamente desistiu da conversa. Aproximou-se, vagarosamente levantou o rosto dela, e sentiu o gosto de seus lábios pela ultima vez. Percebeu que o gosto não era mais o mesmo de outrora, seu mundo agora não era mais o mesmo de outrora.
            Ele saiu deixando-a lá. Caminhou por um bom tempo, quando teve a certeza de que ninguém mais o via, chorou. E suas lagrimas misturavam-se as do céu, que como que adivinhando seu pensamento, também começavam a cair.


domingo, 2 de janeiro de 2011

Armadura



Na batalha estive blindado
Entre lanças e espadas
Deixei-me desarmar
Minha armadura foi quebrada
Lanças me fizeram sangrar
Atingiram meu calcanhar
Meu coração a penetrar
A morte foi prazerosa
Tão bela e suave...
Mas uma força me faz voltar
Há muitos dragões a se derrotar
Varias aldeias a salvar
Muito sangue a derramar
Ponho de volta a armadura
Meu escudo e minha espada
Meu cavalo está selado
Pronto para a batalha

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mais uma ano...

Bem não pretendia postar nada relativo a essas festas de fim de ano, como não postei sobre o Natal, devido a questões ideológicas por assim dizer. Mas achei digno(expressão que comecei a usar esse ano rs) postar alguma coisa sobre esse 2010 que se vai. 


Foi um ano que passou rápido( acho que quando se passa dos 18 você tem sempre essa impressão, de que os anos não são mais duradouros como outrora) mas que trouxe uma série de novidades, boas, ruins e simplesmente "novidades" sem uma visão maniqueista disso. Vida longe dos pais, contatos com novas coisas, novas pessoas, novas experiências... Um novo mundo, uma nova vida ( quando falo dela me refiro em plenitude, a virtual e real, no fundo são as mesmas...). Então por que não esperar ainda mais para esse ano que chega? Por mais que tudo a nossa volta nos faça duvidar disso...

2011 bate a porta, e isso me faz lembrar um texto de Mario Quintana que recebi de uma ex professora e grande amiga. 

ANO NOVO
Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas buzinas
Todos os tambores
Todos os reco-recos tocarem:
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada – outra vez criança
E em torno dela indagará o povo:
- Como é o teu nome, meninazinha dos olhos verdes?
E ela lhes dirá
( É preciso dizer-lhes tudo de novo )
Ela lhes dirá bem alto, para que não se esqueçam:
- O meu nome é ES – PE – RAN – ÇA …


Que encontremos essa menininha de olhos verdes, e que não esqueçamos dela, pois num mundo tão adverso é ela que nos move...
Que venha 2011, 2012 (opa esse aí é um caso a parte rs).


Bons ventos para nós em 2011


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Simulacro

Das profundezas sãs da mente
Fica mais fácil quando ela funciona
Bloqueando o mundo sem "alucinações"
Confundindo realmente o que é real
Das falsas entranhas que me comovem
Do falsos esboços, que não passam disso
E tudo que quero, achei encontrar
Como deixar a armadura se abrir
Deixar verem o blindado onde um frágil
Patético se esconde
Sem nem ao menos perceber

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Morrer e Viver

Morrer e Viver
É gostoso esse prazer
Saber esconder
É mais fácil não sofrer
Calar o mundo e deleitar-se
Das suas sombras respondendo
Hipóteses e ao vaga-lumes


Viver e morrer
Sempre aonde ir, em busca do seu
Próprio inferno para aquecer a
Alma que se enojou do céu
Anjos são bestas encurraladas e
Demônios seres belos e com asas


Morrer, para suprir a bolha vazia
No quintal de incertezas que são
Podadas para não sufocar a dona
Morte


Viver, para escandalizar os egípcios
E privatizar Sodoma e Gomora
Se ridicularizando até as vespes
Nas do dilúvio de fogo 


 Autor: Anderson Moraes

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Amuleto

As folhas caíam no parque daquela pequena cidade. Era inicio de outono e um tom melancólico tomava conta de todas as partes. As nuvens escondiam o sol, apesar de nenhuma gota de água ameaçar cair. Ele caminhava pelo parque, gostava disso, de estar só e caminhar sem ter um destino certo, apesar de que, quase sempre parava no mesmo lugar, o parque. Nesta ocasião, ao observar o doce balé das folhas jogadas ao vento, ficou fascinado com o harmonioso evento natural, provavelmente por que se sentia como estas folhas secas. Sem cor, jogadas ao véu da existência. Em meio a tudo isso sua mente girava, não sabia bem ao certo o porquê. Lembrou que não comia nada desde o desjejum, e isto fazia já algum tempo, só não sabia quanto.

Nunca havia sentido esta sensação, sua vista estava ficando turva, e foi sendo acometida por uma escuridão cada vez mais intensa, já não conseguia enxergar mais nada. Lutava para permanecer em pé, até que chegou o momento em que não mais resistiu e se entregou, o desmaio foi inevitável...

Tempos depois desperta, sua cabeça doía insuportavelmente. Não sabia quanto tempo havia estado ali desmaiado. À medida que foi recobrando a consciência percebeu que ainda estava no parque, porém havia algo de diferente.  Flores despontavam nas arvores e o que antes extravasava melancolia ganhava uma vida e luz incomum. Uma diversidade de cores tomou conta daquele parque, antes sombrio.

Em meio a toda aquela aquarela, algo que parecia vim dos arbustos do parque o atraía, como se fosse uma força magnética e sobre-humana. Não entendia o que estava acontecendo, a tontura já havia passado, apesar de uma leve dor de cabeça ainda persistir a incomodá-lo. Neste momento por entre as arvores ele vê uma sombra, não estava só como imaginava.
- Quem está aí?- A pergunta era inevitável.
Nitidamente a sombra se apresentava como sendo a silhueta de uma pessoa, apesar de não ser possível da distancia em que se encontrava distinguir-lhe o rosto. A única coisa que conseguia ver eram partes das roupas, que eram demasiadas coloridas como o ambiente ao redor.  

Ao se aproximar a figura estranha passou a fugir, e ele o perseguiu, queria saber quem o observava. Durante não mais que alguns minutos de perseguição chegaram às margens do lago, e a figura de roupas berrantes estava a sua margens.

Não podia acreditar no que via, ou melhor, em quem via. A figura que perseguia, era ele mesmo, perseguia a si próprio, ou há uma figura idêntica a ele.
- Mas como isto podia estar acontecendo? Como uma simples caminhada havia findado em tal fato?- Eram algumas das coisas que se perguntava em meio a um turbilhão de pensamentos desorganizados e confusos.

Aquela pessoa, vestida com vestes que nunca imaginou antes usar, era ele, não entendia como, mas se via com aquelas roupas. Portava uma espécie de pingente em forma de sol, ou mandada, não conseguia ver bem o que estava pendurado no pescoço de sua “cópia”. Era aquilo que o atraía por entre os arbustos, antes. Dalí vinha à força magnética que ele seguiu. Aquele amuleto que nunca havia visto antes emanava uma energia que o deixava “nu” por dentro. Toda a sua alma se abria, todos os seus “eus”, medos, monstros, arrependimentos, tudo que o fazia sentir. As pessoas que amava começavam a aparecer, ele se via por dentro, naquela outra pessoa, que na verdade era si mesmo.

Sua mente começava a girar novamente, tinha medo de estar ficando louco, não compreendia o que estava acontecendo. Parecia mergulhar naquela espécie de amuleto, que tanto dele o traduzia. Uma nova confusão de luzes aconteceu, a luz ao seu redor diminua e o tom melancólico do parque retornava. Pensou está despertando de um sonho, mas agora uma dicotomia tomava conta de tudo ao seu redor, o ambiente colorido e parecido com a primavera ainda permanecia lá, mas dividia espaço e se confundia com um clima sombrio e nefasto. Não conseguia distinguir o que acontecia ao seu redor, era uma confusão de cores que criava um ambiente plural, a única coisa que conseguia tomar a sua atenção em meio a tudo aquilo era o amuleto pendurado no cordão de seu outro eu, que a esta altura já havia desaparecido em meio a tudo aquilo. As coisas voltaram a escurecer novamente...

Despertou do desmaio, estava mais uma vez no mesmo lugar que havia caído da primeira vez. Estranhamente ao acordar tudo estava como da primeira vez, as folhas ainda caíam, não havia mais cores nem tão pouco flores, era outono novamente. Suspirou de alivio, tudo aquilo não havia passado de um longo e sombrio sonho.

Levantou-se, e decidiu retornar para a casa, fazia muito tempo que havia saído. Foi quando percebeu que algo balançava em seu pescoço, ao olhar não acreditou no que acabava de ver. Era ele, o amuleto de seu “sonho”.  
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