"As portas da perçepção foram abertas, tudo passa a ser como realmente é: infinito". O efêmero passa a ser intenso, mais intenso do que nunca. A vida é vista no seu sentido pleno, nada se esvai a ela. Não há mais fim nem começo, a mentira confunde-se com a verdade, no fundo sempre foi o mesmo. E...O portal da mente é aberto...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Emanuelle


Ela preparava-se mais uma vez para entrar no palco da pequena casa de shows, que lembrava um antigo cabaré, sobretudo pelo aspecto meio antigo e clássico, uma fachada com ornamentos que lembravam o período barroco.  Na porta do pequeno quarto, que transformara-se em camarim, o dono da casa aparecera já esbravejando pela demora da estrela daquele pequeno estabelecimento. Sabia ele que a maioria dos clientes, já incontentes, vinhera para vê-la. Emanuelle ainda terminava seus últimos retoques na maquiagem, e ficou indiferente aos gritos de seu patrão. Vagarosamente levantou-se após terminar calmamente os retoques em seu rosto. O vestido branco delineava-se sobre seu corpo, desenhando-o como que perfeito. Avançou contra o senhor barrigudo de cabelo pintado de preto e terno amarelo, lentamente colou seus lábios vermelhos sangue na bochecha do patrão, e seu Manoel quase que enfeitiçado calou-se, como se aquela marca vermelha em sua bochecha tivesse amordaçado sua boca. Sucumbiu sem resistência ao encanto daquela linda mulher. Emanuelle sabia que tinha poder sobre os homens que a cercava, e sabia exatamente o que fazer para que eles fizessem sua vontade.

Seguiu pelo escuro e estreito corredor que levava ao palco. Sua pele amarronzada, seus lábios carnudos e seu rosto levemente arredondado, fazia os dois seguranças ali esquecerem de seu trabalho para contemplá-la. Seu corpo cheio de curvas desenhadas pela roupa que lhe cabia como por encomenda, dificilmente uma roupa não lhe cairia bem. Sua beleza fazia inveja até mesmo a Afrodite ou as mais belas musas. Era a poesia incorporada, não só sua inspiração. Subiu no palco, era ali que brilhava, e não só pelos pequenos cristais do seu lindo vestido dado pelo prefeito da pequena cidade.

Os homens ali embaixo literalmente babavam a sua presença, e ela sabendo de seu poder, os encarava um a um, com uma olhar cor de mel que deixava todos hipnotizados, em transe. Ela despertava algo que beirava o sobrenatural naqueles ali. As mulheres , por mais belas que fossem, eram ofuscadas por sua beleza, balbuciavam comentários mesquinhos em que nem elas próprias de fato  acreditavam. O senhor que dançava com sua mulher entortava o pescoço como um contorcionista para ver melhor as curvas de Emanuelle, o que o fez levar uma bronca tremenda acompanhada de um belo tapa de sua “patroa”. Era de fato uma energia que atraía e mexia com todos, capaz até de ocultar e deixar passar despercebido sua falta de talento cantando, e os erros de sua limitada banda. O centro da atenção era ela, todos apenas a contemplavam, seu corpo, seu gestos, a forma sensual com que parecia balbuciar, e não cantar, as musicas. Sem duvida era um ser de outro mundo.

Depois de quase duas horas de show, que mais pareceu um transe coletivo, onde esvoaçavam-se, rosas chapéus, e até mesmo dinheiro com direção ao palco, Emanuele terminava seu espetáculo. Todos cercavam a saída do palco, o desejo era de tocá-la, possuí-la, era uma deusa, e ela sabia disso, soltava beijos para os fãs enlouquecidos. O caminho de volta para o camarim era sempre mais difícil, ali nada mais importava, todo aquele desejo e adoração que tinham por ela. Estava só mais uma vez, e o dinheiro conquistado com aquele seu jeito que contaminava até os mais tímidos, não supria o vazio que sentia por dentro. Em frente ao espelho, seu sorriso tomava tons cinza, e a estrela não mais brilhava. Sua maquiagem era borrada pelas incansáveis lagrimas que derramava sozinha, como sempre foi, em frente aquele antigo espelho.







quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Desvarios de noites eternas"

Beijou-a, entregando-se ao desejo que ameaçava o peito rasgar. Estavam às escondidas, sabia que aquilo não era o certo a se fazer. Era um daqueles amores proibidos que havia lido num desses livros de época. Germinava nos becos escuros e hotéis baratos.

De pensar que a principio ele queria apenas aquele belo e sedutor corpo em sua cama, para um sexo casual e de muito desejo.

Conheceram-se na fila do banheiro de um barzinho, quando ele esbarrou de propósito nela. Estavam bêbados os dois. Poucas palavras, um sorriso de canto de boca, e ela saiu deixando-o no gosto do querer.
Poderia ter sido ela noutra vida uma dessas senhoritas casada com um coronel, e ele um escravo recém-liberto que perambulava entre botecos na parte pobre da cidade.

Sempre que se viam trocavam olhares. Olhar é a porta da alma, já diria algum filósofo qualquer, destes que ninguém sabe se realmente existiu, ou se era um bêbado que falava demasiadamente sobre suas mágoas.

As almas deles se queriam, por isso se entreolhavam tão forte e tão intensamente. Ela sabia dos perigos, tentava resistir, mas não conseguia. Sim, aquele desejo era mais forte do que ela. Durante toda a vida lera romances, chegou um dia a acreditar neles e na descrição daquelas paixões épicas, mas o caminhar de sua vida mostrara o contrário.

Agora estava ali refém daquele negro com cara de malandro insinuante, e que lhe inspirava desejos profanos.

Séculos atrás, caso fosse aquela dama, casada com o coronel de um pequeno arraial, talvez fosse mais difícil o que se sucedeu, mas a atração era tamanha que mais do que certamente aconteceria como aconteceu.

O preto só queria aquela dama em seu pequeno quarto no cortiço não muito convidativo em que vivia. Era apenas sexo que aquela adorável branca lhe inspirava. Duvidava seriamente que fosse se envolver como se envolveu.

Depois de muita insistência, e vários “nãos”, ele passou a conhecer aquela que mexia (agora percebia isso) muito mais do que com a sua libido.

Fazia pulsar sangue naquele coração que gelou após tanto apanhar, não de chicotes no tronco, mas dos amores de sua vida.

Estavam ali agora, naquele quarto de hotel barato se entregando a estes desejos. Era uma mistura de atração sexual, libido viva, com o mais profundo e vivo amor. Sim era este sentimento que emanava daqueles beijos “brutos”, fortes e intensos.

Eram duas enxurradas de sentimentos, dois corações se desejando, que quando se encontravam emitiam faíscas. O tempo era pouco para tanto desejo, talvez por isso parecesse parar, e conspirar a favor daqueles dois.

Ele beijava intensamente aquele corpo branco e arrepiado, percorrendo cada poro daquela formosa dama. Ela revirava os olhos, e esquecia todos os obstáculos daquele amor proibido.

Os cabelos vermelhos molhados de suor grudavam em seu rosto e nas suas costas, enquanto ele a beijava e acariciava seus seios, com as grandes mãos negras. Alternava entre a boca, os peitos, e todo o corpo daquela linda senhorita. Queria-a muito...tinha-a ali em seus braços.

Com sua boca encontrava não só os lábios da boca dela, fazia-a gemer e se entregar aquele corpo negro, que contrastava com o branco da pele dela. Era uma dança, ela se revirava, e ele a possuía fortemente.

Ele experimentava cada centímetro daquele corpo, e ela o respondia. A cada arrepio. Por vezes tomava o controle daquela dança sensual, e ela percorria com toda vontade que jorrava de dentro de si. Beijos e mordidas naquele corpo negro que tanto lhe inspirou desejo, a ponto de estar ali absorta naquele momento.

Dançavam uníssonos, naquela cama. Misturavam todo o desejo que transbordava violentamente daqueles corpos, com aquele sentimento que fazia o coração pulsar tão rápido, que os pés tremiam e saíam do chão. Eram cinza, de tanto que estavam juntos e dentro um do outro. Eram música, entre gemidos, beijos e o barulho da cama vagabunda que balançava por causa dos parafusos frouxos. Eram yin yang. Calmaria e caos...amor e sexo.

A dança, cada vez mais rápida, mais intensa, caminhava para o clímax...sussurrando no ouvido dela, enquanto o resto do corpo ia relaxando aos poucos.

-Você é o meu atestado de loucura - disse o preto entregando-se ao gozo em conjunto e relaxando junto a ela, donde descansavam num corpo só.     







sexta-feira, 12 de abril de 2013

Nostalgia



Abriu aquele portão que não era mais o mesmo. Não sabe há quanto tempo, nem quantas vezes aquela passagem que lhe era tão intima havia sido mudada. Anos atrás costumava ser de uma madeira envelhecida. Por vezes quebrava, fazendo com que seu pai abrisse a antiga caixa de ferramentas para consertá-lo. Agora o portão era de metal, e não havia mais aquela antiga cerca que perdurara por tanto tempo. Sempre reclamara dela, incontáveis foram as bolas de futebol que tiveram seu fim nas farpas daquele arame.

Adentrou na casa, o pequeno espaço onde jogava bola ainda existia, agora com piso "vivo". Entre os espaços de concreto, uma grama verde reluzia. Pensou sorrindo quantas "cabeças de dedo" teriam sido poupadas se tempos atrás houvesse aquela grama.

            -Senhor, senhor...Vamos entrar para o senhor conhecer o interior da casa - disse a vendedora fazendo-o voltar a si por um instante.

Entrou numa casa que não era aquela de seu tempo. O teto agora era coberto por madeira. Menos mal, levando-se em conta os transtornos que sua mãe passava com a sujeira que caía das antigas telhas. A sala havia sido totalmente remodelada, assim como os diversos cômodos. Malmente reconhecia onde fora um dia seu quarto.

            -Temos 3 quartos amplos senhor, um deles com suíte...- falava sem parar a mulher loira e bem vestida, sem respirar nem sequer um segundo.

Ele a ouvia ao fundo, seus pensamentos estavam longe, 40, talvez 50 anos atrás. Se encaminhou para o quintal, acompanhado da falácia de sua inconveniente "companheira" que insistia haver outros cômodos para conhecer.

Os "fundos", como todos costumavam chamar, estava irreconhecível como o resto. Os pés de manga e caju tornaram-se a beira de uma grande piscina. Lembrou que ter uma piscina em casa era seu sonho quando criança, no entanto hoje preferia aquelas grandes pedras amontoadas que ficavam naquele lugar, e que haviam sido montanhas, naves espaciais, palcos de rock...

Veio-lhe uma lembrança que fez seus olhos encherem de lágrimas que não transbordaram. Desde que crescera chorar tinha tornado-se coisa rara, apesar de ironicamente haver mais motivos para tal. A lembrança era de seu irmão que padecera, e do caminhão de "mentira" (para ele sempre era verdade) que dirigia ao seu lado com um antigo volante perdido naquele imenso quintal, quintal que costumava fazer de mundo.   

Nessa altura a vendedora reclamava do enorme pé de Pinheiro que sujava a piscina, e que seria cortado para evitar o transtorno. Nunca entendera o que aquela arvore do sul e de lugares de clima frio, fazia em pleno sertão. Por diversas vezes imaginara aquela grande arvore coberta de luzes de natal. Gostava dela.

Lembrou do canto da cigarra, que vinha quase sempre dali. Todo fim de tarde, era certo ouvir seu canto, que o deixava irritado. Jogava pedras no Pinheiro, a cigarra como que se divertindo com a cara do tolo jovem, parava por alguns segundos e recomeçava seu canto, cada vez mais forte.

O sol já se punha a esta altura, outrora naquele horário estaria atirando pedras em cigarras, ou correndo para ver o carro do Fumacê passar despejando seu veneno, e fazendo a alegria das crianças.

Tudo era tão bom, vivo, agradável. Aqueles filmes, lapsos que passavam em sua mente. Tinha vontade de voltar no tempo. Não por ter errado, não queria fazer diferente. Queria viver de novo tudo aquilo, ter aquela inocência, aquela imaginação que fazia cada dia ser diferente, cada dia ser de fato um novo dia. Era um sentimento maravilhoso, porém triste de beirar o insuportável. Uma felicidade advinda de ter vivido tudo aquilo. De lembrar nitidamente de cada passo, cada queda. No entanto sentia-se triste por não poder viver aquelas coisas novamente. Era doído tudo isso para aquele velho coração, já baleado de tantas viagens.

Sua reflexão foi quebrada pelo som insuportável, que não era de uma cigarra, aliás como queria ouvir uma cantar novamente. Tinha certeza que não jogaria pedras como outrora. O som alto que ouvia vinha das buzinas dos carros que transitavam na rua onde um dia jogara futebol, e hoje era ponto de engarrafamento na hora do rush.

            -Então senhor podemos fechar a compra? - Havia até mesmo esquecido da vendedora "hiperativa" que o acompanhava.

Sem responder uma palavra, aquele excêntrico senhor saiu, deixando atônita a mulher que considerava certa a venda daquela bela casa.





terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Nada é em vão...


Era um jovem sonhador, feliz. Adorava sentir o vento alisar seu rosto enquanto pedalava com as mãos soltas, imaginava-se voando entre as nuvens. Possuía aquela alegria que apenas as crianças parecem possuir no mundo de hoje.

Todos os dias pela manhã como todos desse mundo cão, ia cumpri suas obrigações. Achava um tanto quanto tão banal tudo aquilo.  

- Bom dia – dizia ao empresário de terno e gravata que o ignorava com pressa.

Não entendia aquele corre-corre ao seu redor. Tantas pessoas, a largos passos, sem chegar a lugar nenhum. Gostava de sentar no banco da pequena praça, e alimentar os pombos. Eles não corriam, pelo contrario, voavam. Eram livres para isso.

No ônibus na volta pra casa, seu sorriso parecia único em meio a rostos tristes, cansados. Lembrou que certa vez havia visto um filme de zumbis ( o que lhe rendera vários pesadelos) , e era exatamente isso que lhe parecia. Riu ao pensar aquilo.

Descendo do ônibus ao passar por um loja viu aquele nariz de palhaço estampado na vitrine. Veio uma vontade súbita de compra-lo, mesmo nutrindo certo medo de palhaços. Retirou suas moedas e comprou meia dúzia daquele item. Tinha uma ideia do que fazer daquilo.

No dia seguinte enquanto sua mãe preparava o café apressada para sair para mais um dia de trabalho, ele surgiu na cozinha com aquele nariz de palhaço, arrancando um sorriso que há muito não via sua mãe soltar.  Objetivo alcançado. Após refletir bastante sobre todos aqueles corpos que caminhavam como zumbis pelas ruas e avenidas, surgiu-lhe a ideia de fazê-las nem que seja por um simples momento sorrir. E que melhor forma do que usando um nariz de palhaço?

Partiu seguindo seu caminho, sorrisos estampavam rostos ao seu redor. Não sabia se o achavam ridículo, ou se achavam interessante, engraçado. Não importava, queria apenas ver aqueles rostos tristes ganharem brilho e felicidade.  Aos interessados distribuía os outros narizes. Qualquer simples sorriso tinha uma sensação de dever cumprido. E continuou a fazer isso durante aqueles dias, pitando com sorrisos aquelas pessoas tão tristes.

Certa vez ofereceu um nariz daqueles para uma moça que bradava contra o cobrador que lhe passara por engano o troco errado. A mulher brava, pegou o nariz e jogou no chão, mandando-o sair de seu caminho. O jovem sentou-se cabisbaixo na sua poltrona, e lágrimas sinceras, quão raras tem se tornado elas, escorreram-lhe pelo rosto.  Começou a pensar o quanto inútil era tudo aquilo.

Em casa num ato de desespero, jogou todos seus narizes pela janela. Decidira não fazer mais nada para mudar aquilo. Tinha perdido a fé.

O destino tem dessas coisas, um médico de um hospital próximo passava pela rua naquele momento.  Encontrou aqueles narizes de palhaço espalhados pela rua. Ele trabalhava com crianças que tinham câncer. Lembrou-se daquele filme, de um medico maluco dos Estados Unidos que usava um nariz de palhaço para alegrar seus pacientes, foi então que lhe surgiu uma ideia; iria colorir um pouco aquele ambiente cinza em que vivia. 




sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O choro do poeta

As lagrimas se misturam com as palavras
No vai e vem à dor é congelada, frisada num momento
Fotografia da dor, imagem sem ação
Letras harmonizadas aos soluços
Emana-se o choro do poeta
Nascido para sofrer
Escreve para confortar
Poesias são lagrimas
Derramadas sobre o papel



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Amor de malandro

Acordou após a forte luz do sol agredir seus olhos. Meio atordoado não entendeu bem o que estava por acontecer em sua pequena pocilga. Seu Raul abria as cortinas do pequeno espaço composto apenas de quarto, sala e um minúsculo banheiro. Aos berros usava todo seu repertório de palavrões. Januário permaneceu na cama, sua cabeça parecia que ia explodir, e ainda se encontrava meio tonto, resquícios da noite anterior. Aos poucos foi recobrando sua consciência, e percebeu que Seu Raul estava lhe cobrando mais uma vez o dinheiro do aluguel, que já completara três meses de atraso. Levantou-se e sentou ainda na cama.




- Seu Raul, prometo que desta semana não passa, os negócios...


- Que negócios seu vagabundo, você não faz nada dessa vida fio de uma égua, quero meu dinheiro hoje. Faz mais de uma semana que foges de mim, mas hoje eu te peguei. - interrompeu Seu Raul sem ao menos esperar o argumento de seu enrolado inquilino.


Januário tirou algumas cédulas e moedas do bolso, que não davam conta nem de um terço da dívida. Seu Raul vendo o pouco dinheiro passou os olhos pela sala,se deparando com uma vitrola sob a estante castigada por cupins, resolveu levá-la como pagamento da dívida em questão. Januário até pensou em impedir o velho com aparência austera, bigodudo e de vestes sujas, mas preferiu não lutar contra aquilo. A vitrola havia sido presente de uma cubana, que certa vez visitara a cidade histórica da Bahia onde vivia, e com quem tivera um breve caso. Uma série de vinis de Cartola, Nelson Gonçalves e mais outros ficaram sobre a velha estante. 


Após rápida passagem pelo banheiro, Januário pegou seu antigo violão e seu chapéu branco característico, ambos heranças de seu pai. Foi paras ruas, onde de fato era seu lar. Perdeu seus pais muito cedo, quando tinha apenas 14 anos, e aprendeu cedo a ser malandro. Seu destino era certo, o bar de Dona Dalva. Passava o dia a dar vida às cordas de seu violão, que acompanhava sua belíssima voz, donde saíam belas canções. 


Para os habitantes daquela pequena cidade, era apenas um vagabundo que atraía as meninas ainda inocentes com seu papo fácil, e canções baratas. Para outros um bêbado preguiçoso que não queria nada com a vida, não sabendo eles que na verdade Januário era apaixonado pela vida, e não conseguia se adaptar a rotina que aqueles ao seu redor consideravam dignas. Dona Dalva era uma das poucas da cidade que conhecia a história do malandro, fora amiga dos pais dele, e sempre que podia ajudava o “pobre coitado”. 


Januário era um sonhador, e se considerava um homem fora do seu tempo, ou de seu lugar. Desde que escutara as histórias que Omara, a cubana que certa vez passara alguns dias com ele, contara-lhe sobre Cuba havia se encantado, e vivia dizendo para Dona Dalva que qualquer dia iria parar lá.


Enquanto tomava seu primeiro gole de cerveja, apareceu na porta Andreia, a mulher por quem Januário estava enrabichado já havia algum tempo. Pôs-se a tocar e cantar versos de improviso para aquela linda negra de cabelos cacheados, e de olhos verdes. A mulata ocupava boa parte de seus pensamentos, e era musa de suas canções há um bom tempo. Andreia sorriu cinicamente para o malandro e após pegar a “quentinha” de seu chefe partiu para o lugar em que trabalhava. No meio do caminho Januário a abordou, e tentou beijá-la como diversas outras vezes já havia o feito, mas a mulata de corpo esbelto virou o rosto quando o ato parecia concretizado, e pediu que lhe encontrasse a noite, próximo de seu trabalho.


Januário, conquistador e galinha, já havia deixado apaixonadas diversas garotas da cidade. Mas nunca havia se apegado a nenhuma delas, o que lhe rendeu a sua má fama. No entanto, nunca havia sentido nada parecido pelo que sentia por Andreia, talvez pelo fato de que ela não era unicamente sua. Andreia trabalhava num dos mais famosos Bregas da cidade, e era uma prostituta, das mais belas e mais requisitadas. Há algum tempo o malandro com sua conversa fácil havia conseguido seus serviços de graça, e desde então se apaixonara, e a encontrava sempre que as horas de folga do trabalho de Andreia permitiam.


A noite como combinado Januário estava lá, na viela escura próxima ao antigo casarão onde havia um bar, fachada do bordel que ali funcionava. Após esperar por mais de uma hora, apareceu Celestina, uma das putas que trabalhava com Andreia, e trazia-lhe um bilhete da sua paixão. Em poucas palavras Andreia pedia que ele a encontrasse na sua pocilga, onde o estava a esperar. 


Encaminhou-se então para o cortiço onde morava, não gostava de levar Andreia para lá, pois não achava o lugar digno da presença de sua amada. Estranhou o bilhete dela pedindo para que ele fosse vê-la em sua “casa”, mas havia tantos dias que não a via, que nem se preocupou com o acontecido. 


Chegando ao cortiço, ela o esperava em frente à porta de sua morada, e o recepcionou com um caloroso beijo. Adentraram a pequena casa, e ela estranhamente reparava tudo ao seu redor. Percebera a falta da vitrola que Januário havia lhe mostrado na primeira e única vez que tivera ali. A estante que caía aos pedaços, e guardava os vinis de tempos charmosos, que não eram mais estes. Quando Januário se preparava para esboçar algumas palavras, Andreia pôs lhe o indicador na boca, e logo após o beijou. O beijou como nunca o havia beijado, pela primeira vez se entregava sem medo aquele amor, que duvidara por muito tempo existir. Ele lhe rasgou a pouca roupa, e se entregou junto aquela ardente paixão. Dançaram a dança da paixão sobre aquela antiga cama, nem mesmo o barulho das dobras quase soltas, e prestes a soltar, era capaz de incomodá-los. Era o ápice daquele amor marginal, Andreia esquecia-se de sua dura rotina no Brega, de sua infância pouco feliz que havia lhe marcado e achava conforto nos braços daquele malandro, que não tivera uma sorte muito melhor que a dela. Por um momento, que se confundia com a eternidade, aquele casal viveu um sonho. Uma canção feliz. 


Na manhã seguinte Andreia que nem chegou a dormir direito, se apressara em pegar suas poucas vestes, ainda rasgadas. Januário despertou sorrindo, e foi ao encontro de sua amada, que recuou. E de costas e cabeça baixa disse:


- Não quero mais te ver, isso já foi longe demais, estou perdendo dinheiro nessas minhas fugas.


- Eu achei que você gostasse de mim – simples e espantando, como uma criança Januário soltou as palavras.


- Hahaha você já viu puta gostar de alguém, ainda mais vagabundo. Foi tudo diversão. Tem horas que a gente cansa de dar para bêbados sujos que mal conseguem conversar, e é bom se divertir um pouco com uma carinha de anjo que nem essa sua. Adeus, e por favor não me procure mais.













O malandro ficou estarrecido diante daquelas palavras, sem reação. Mais tarde foi para o bar de Dona Dalva como de costume, poucos estranharam sua falta de brilho. Esperou por Andreia, mas quem foi buscar a comida do patrão foi Celestina, que foi clara quando enfatizou que Andréia não o queria ver. Desesperado e depois de passar o dia afogando suas mágoas na mesa de bar, resolveu ir à procura da prostituta. No entanto barrado na frente do bar, e sem dinheiro para “consumir” no bordel, o malandro levou uma surra do dono do estabelecimento, e foi jogado na viela onde diversas vezes encontrara a bela mulata. Chorou ao relento, nunca amara outra mulher como amou aquela “puta”. Foi então que decidiu partir daquela cidade, pegou suas poucas tralhas, pôs seu violão nas costas e caminhou sem rumo.


Na cidade ninguém mais o viu. Alguns dizem que o malandro se deu bem, e realizou seu sonho de conhecer Cuba, onde vivia à custa da cubana que certa vez conhecera. Outros dizem que o destino foi cruel com o coitado, e que vez por outra alguém o via com seu violão nas sarjetas da capital. Mas ninguém sabia o que de fato acontecera ao malandro de coração partido e violão na mão.


O que Januário nunca soube é que ele conseguira tocar o duro coração daquela prostituta, que por muito tempo duvidara do verdadeiro carinho, afeto e ternura. Ela o amara, mas não suportou sentir aquilo, com a vida que levava.








quinta-feira, 3 de maio de 2012

Cheirinho de café no fim da tarde


A tarde ia se despedindo em seus últimos suspiros, e as frestas amarelas do sol atravessavam as pequenas janelas entreabertas da cozinha. Aquele cheiro inconfundível pairava no ar, o café estava quase pronto, mas a lembranças que se passavam pela minha cabeça me diziam que faltava algo.

Engraçado estas coisas da vida, tem cheiros que te marcam. Pessoas que te marcam. Faltava um pedaço, mas eu ainda vivia, sobrevivia ,não sei dizer ao certo. Acho que as coisas são assim, você segue sempre para frente, e coisas vão ficando para trás. Aqueles beijos enquanto a água ainda estava no fogo, por vezes acabava passando do ponto. Acho que as chamas daquele antigo fogão a lenha, acabava nos contaminando, e o que começava na cozinha, quase sempre acabava no quarto, ou no sofá. Os sorrisos pouco tempo depois, anunciavam o gozo de desfrutar muito mais do que aquele afetuoso café.

Não sei o que aconteceu, talvez tenha sido a rotina. Mas como pode alguém enjoar daquele cheirinho de café de fim de tarde. Palavras que ouvira outrora ecoavam ainda na minha mente. E aos poucos ia descobrindo o que lá o fundo já sabia...

 O café está pronto, volto de meus devaneios de um passado real, e não tão distante. Encho a minha xícara preferida, e mais memórias passam pela mente. Tomo alguns goles, tenho a impressão que falta algo. Não está tão doce como era de costume, mas sei que o açúcar não ajudaria a adoçá-lo. Sento no sofá, deixo as lembranças de lado, e continuo a tomar o meu café amargo...


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